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    A estética em função do bem público comum

Por Benjamin Azevedo

Como você está se sentindo agora? Onde você está, com quem, fazendo o quê? Cerca de 64 mil pessoas, em várias partes do Reino Unido, recebem –e respondem– perguntas como essas diariamente, por meio de um aplicativo chamado Mappines. A ação faz parte de um estudo conduzido por uma dupla de pesquisadores da London School of Economics and Political Science e ainda está em andamento, mas já chegou a algumas interessantes conclusões. Uma delas é que programas associados de alguma forma à beleza, como shows, apresentações de dança e exposições de arte, estão entre as atividades que mais deixam as pessoas felizes, ficando atrás apenas de sexo e, para algumas pessoas, de atividades físicas.

Outro estudo sobre a felicidade, a partir de dados coletados em Berlim, Londres, Nova York, Paris e Toronto, concluiu que doses frequentes de beleza na paisagem que nos cerca, como a arquitetura e os espaços verdes, exercem uma forte influência no nosso estado de espírito. Quanto mais bonito é o lugar em que se vive, mais fácil é ser feliz, conclui a pesquisa, realizada por Abraham Goldberg, da University of South Carolina Upstate.

Embora não sejam essencialmente novas, essas constatações afirmam sua pertinência ao atualizar e revigorar o debate sobre o universo da estética nas sociedades contemporâneas, chamando atenção para algo que, em princípio, todo mundo sabe que é importante, mas muitas vezes é relegado a um segundo plano – particularmente no que diz respeito às políticas públicas de determinados países.

O conceito de estética tem origem na filosofia, envolvendo o estudo e percepção da beleza no universo da arte. A psicologia incorporou o tema ao seu campo de análise, debruçando-se sobre a influência da estética no comportamento humano. Da Antiguidade clássica à Modernidade tardia, muito se pensou, analisou e polemizou sobre o tema. Mas uma certeza permanece: nossos sentimentos e comportamentos são diretamente influenciados pelos ambientes em que nos encontramos e as experiências estéticas proporcionadas por esse entorno contribuem significativamente para o nosso bem estar e nossa saúde.

Nesse processo entram aspectos e elementos como iluminação, materiais, texturas, cores, escalas, estilos. A ciência comprova: hospitais que valorizam as experiências estéticas têm observado impactos positivos no tratamento contra a dor e o estresse, com redução do uso de medicamentos, do tempo de recuperação e, naturalmente, dos custos. Nas escolas, cada detalhe da arquitetura repercute nas sensações e ações dos alunos – a existência de janelas nas salas de aula, por exemplo, contribui para o aprendizado. Já nos escritórios, aspectos referentes à paisagem interna, como a presença de plantas, foram diretamente associados à satisfação e à produtividade dos funcionários.

Esses fenômenos encontram lastro na neuropsicologia. Estudos nesse campo indicam que o sistema límbico do nosso cérebro é a sede das nossas emoções. É a parte do cérebro que lida com o não-racional. Em contrapartida, o neocórtex é o cérebro pensante e ele está dividido em dois hemisférios com diferentes funções. Enquanto o hemisfério esquerdo é verbal, lógico e orientado para o ambiente externo, o hemisfério direito é dionisíaco: é intuitivo, holístico e se preocupa com o interior. Cada um de nós tem a necessidade psicológica de satisfazer as demandas dos três sistemas. E segundo o pesquisador Roger Ulrich, a harmonia estética é essencial para o bem-estar das pessoas por contribuir para o equilíbrio de todas as três áreas.

Da mesma forma que reagimos positivamente a ambientes agradáveis, que nos inspiram, emocionam e instigam, respondemos negativamente a cenários em que as experiências estéticas são subestimadas (apresentando, por exemplo, queda na imunidade). Construções frias, estéreis e excessivamente impessoais, assim como espaços onde predomina o design hightech, muitas vezes são percebidos como deprimentes, opressores e até assustadores.

Em economias mais fortes, essas questões perpassam o planejamento urbano, e a dimensão estética é reconhecida e valorizada tanto em projetos públicos como privados. Países em desenvolvimento, no entanto, geralmente subestimam a questão: gestores públicos não costumam dar muita atenção ao tema e os cidadãos não são consultados sobre –ou sequer discutem– a influência da estética nos espaços e instituições coletivos, apesar de sua comprovada influência na saúde e bem estar da comunidade. Lidar com essa questão é um desafio que se impõe, cada vez mais imperativamente a essas lideranças. E isso envolve, muito mais do que fatores financeiros, uma mudança cultural, um alargar político e filosófico que provoque reflexões e, posteriormente, ações que levem o universo estético em consideração ao analisar e promover o bem estar público.

Benjamin Azevedo

É sócio da Black.Ninja, membro do Young Presidents Organization (YPO) e da Academy of Interactive and Visual Arts.

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